sábado, 29 de setembro de 2012

Filho de Ratinho lidera disputa em Curitiba

Fernando Haddad, Lula, Ratinho Jr e o apresentador Ratinho
Aos 31 anos, deputado federal usa popularidade e dinheiro do pai para conquistar votos. Se vencer, quebrará uma tradição de 27 na cidade 

O deputado federal Ratinho Jr. (terceiro da esquerda para direita) ao lado do seu pai, Ratinho, Fernando Haddad e Lula, na ocasião em que o ex-presidente concedeu uma entrevista ao apresentador, em maio. (Lourival Ribeiro/SBT)

As eleições para prefeito de Curitiba vêm dando um novo sentido ao termo "negócio de família". Com mais de 90% da campanha financiada pelas empresas do pai - o apresentador de TV Ratinho -, o deputado federal Carlos Roberto Massa Júnior (PSC) lidera as pesquisas de intenção de voto na capital do Paraná, o sétimo colégio eleitoral do país (1,1 milhão de eleitores). Em nome da eleição do filho, Ratinho chegou a ignorar ordem judicial que o proibia de subir no palanque do pupilo. 
 
A estratégia vingou: a uma semana do primeiro turno, Ratinho Júnior, que até a metade do ano era considerado um "cavalo paraguaio" – capaz de gerar interesse no começo, mas que inevitavelmente decepciona quando a campanha começa para valer –, é o favorito do eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira mostra Ratinho Jr. com 32% das intenções de voto, contra 25% do segundo colocado, o atual prefeito Luciano Ducci (PSB). Se vencer, Ratinho Jr. vai romper uma tradição de 27 anos em Curitiba: desde 1986, ano da volta das eleições diretas para prefeito em capitais, os curitibanos sempre elegeram o candidato apoiado pelo governador ou integrante de um grupo que já ocupava a prefeitura.
 
Aos 31 anos, Ratinho Jr. tirou o foco daquele que parecia ser o principal embate da eleição: entre o do ex-deputado Gustavo Fruet (PDT) e o prefeito Luciano Ducci. Tudo isso com um terço do tempo de TV de Ducci. A situação lembra a do candidato Celso Russomano (PRB), líder em São Paulo – os dois são de partidos nanicos e têm como principal apelo da campanha o tom popularesco. 
 
Com o favoritismo, vieram os ataques. Seus dois adversários, que passaram boa parte do ano mirando um no outro, passaram a acusar Ratinho Jr. de "amadorismo". Ducci disse que a cidade "não precisa de animador de auditório, mas alguém que saiba administrar". Já Fruet comparou o filho do apresentador com o ex-presidente Fernando Collor de Mello.
 
Dinheiro e carreira - Além da popularidade do pai, Ratinho Jr. se apoia nos negócios da família, dona de retransmissoras do SBT espalhadas pelo estado, cinco rádios, fazendas e empresas que atuam na produção de cerveja e café. Ratinho Jr. é o candidato mais rico no páreo: declarou patrimônio de mais de 7,5 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 
 
Sua primeira prestação de contas, divulgada em agosto, mostrou que as empresas do pai bancaram mais de 90% da sua campanha. “Esses recursos fizeram diferença na hora de colocar gasolina para o trem começar a andar. Agora já estamos recebendo outras doações”, disse o candidato ao site de VEJA.
 
Ratinho Jr. não é um novato na política, apesar da pouca idade. Em 2002, também apoiado no nome do pai, que estava no auge da popularidade do Programa do Ratinho, no SBT, ele conquistou seu primeiro mandato, como deputado estadual no Paraná, com 21 anos.
 
Quatro anos depois, lançou-se deputado federal e venceu. Em 2010, foi reeleito com mais de 300.000 votos, um recorde no Paraná. Na sua passagem pela Câmara, votou pela prorrogação CPMF e pela aprovação do novo Código Florestal e da PEC dos vereadores – que inchou ainda mais as Câmaras Municipais, ao aumentar o número de cadeiras de vereadores nas cidades. “Entendi que os recursos da CPMF iam faltar na saúde e votei a favor da prorrogação”, tenta justificar o deputado. “Já no caso dos vereadores eu fui a favor desde que isso não encarecesse o custo das Câmaras.”
 
Rinite - Recentemente, o deputado recorreu a uma "licença conjunta consecutiva", para se afastar da Câmara dos Deputados por 120 dias e se dedicar à campanha. Só que Ratinho Jr. emendou o prazo com uma licença por motivos de saúde. A manobra permitiu que seu suplente assumisse e seus funcionários continuassem trabalhando. Sem o dia a mais de licença-saúde, o pessoal teria de ser dispensado pelos 120 dias. O deputado diz que as licenças conjuntas foram uma coincidência. “Tive uma crise de rinite nesse dia. Aproveitei para fazer um check-up.”
 
O pai - O apresentador Ratinho é presença permanente na campanha do filho deputado, o que compensa o tempo escasso de propaganda eleitoral na TV, o quarto entre os candidatos. O apresentador chegou a ser proibido pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de aparecer ao lado do filho em comícios – que poderiam ser considerados "showmícios" por causa da presença do artista-apresentador. Ratinho nem considerou a decisão e, no dia 7 de setembro, subiu no palanque com seu filho. Em um discurso, o apresentador disparou em seu melhor estilo. “Na hora em que meu filho entrar na prefeitura – e eu conheço essa fera – ele vai abrir aquela caixa preta.”
 
“É claro que a presença do meu pai foi fundamental na primeira eleição. E continua a ajudar. A população achava que votar em mim ia ser uma forma de transferir votos para ele. Mas depois eu não dependi mais disso, meu trabalho na Câmara já se tornou conhecido”, disse.  
 
A exemplo de Russomano, que é do PRB, Ratinho Jr. concorre por um partido praticamente inexpressivo, o PSC, o que levanta temor sobre quais serão os quadros que vão compor sua equipe no governo. “Não existe esse problema. Já formamos um bom quadro e vamos procurar outros sem levar em conta filiação, sem lotear o governo”, disse Ratinho Jr.
 
Explicação - Para o cientista político e professor Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), autor de um estudo sobre a influência das famílias na política paranaense, parte do fenômeno Ratinho Jr. é reflexo tanto do crescimento da classe C quanto do crescimento populacional de Curitiba. “A figura do Ratinho tem muito apelo para o eleitorado da região sul da cidade [a mais populosa e pobre de Curitiba], que tem um perfil semelhante à família dele: saíram do interior do estado e conseguiram ascender por causa do trabalho”, diz Oliveira. “A campanha tem sido eficiente, falando com uma linguagem acessível, de fácil compreensão.”
 
Mas só a linguagem, o dinheiro e o apelo do sobrenome, segundo estudiosos da política paranaense, não são suficientes para explicar a subida de Ratinho. A campanha mais cara é a do atual prefeito, Luciano Ducci, que já gastou mais de 3,5 milhões de reais – 2 milhões de reais a mais do que Ratinho Jr. Ducci é apoiado pelo governador Beto Richa (PSDB).
 
Apesar de tudo isso, o prefeito está em segundo lugar. Sua administração é reprovada por 39% do eleitorado, segundo pesquisa Datafolha. De acordo com Oliveira, a candidatura de Ratinho Jr. não teria feito tanto barulho há quatro anos se não fosse por Ducci. “Ele aproveitou uma janela de oportunidade. O Ratinho Jr. se beneficia do desgaste dos outros partidos e do fato de que o atual prefeito cometeu erros na administração. Por isso não pela primeira vez o ocupante ou membro do grupo que ocupa a prefeitura não é o favorito. É uma situação inédita”, disse Oliveira.
 
À la Russomano - Para o pesquisador, o mesmo acontece com o candidato Celso Russomano. “Os dois se beneficiam de uma conjectura especifica: desgaste dos candidatos tradicionais, que sofrem com a rejeição, e concentram esforços no eleitorado de periferia, que já não vê muito sentido na polarização e simpatiza com esse tipo de candidato.”
 
Em Curitiba, Gustavo Fruet parecia ser o candidato da oposição que iria ganhar destaque. Nas primeiras sondagens, chegou a ser o favorito na disputa, mas amarga agora o terceiro lugar. Fruet vem sofrendo para arrecadar recursos e ainda enfrenta o desgaste de ter se aliado ao PT, o que levantou acusações de hipocrisia. O ex-deputado, que foi filiado ao PSDB no passado, foi um dos maiores críticos do mensalão quando atuou como sub-relator na CPI dos Correios. Sua candidatura é apoiada pelo casal de ministros petistas Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Paulo Bernardo, das Comunicações.  Jean-Philip Struck

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