quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Internautas se automedicam com ajuda da web




 
Buscar informações sobre doenças e medicamentos na internet tornou-se algo extremamente comum nos últimos tempos. Especialistas têm se surpreendido com um número cada vez maior de pacientes que chegam aos consultórios com diagnósticos prontos, certos de que estão com determinada enfermidade. Curiosamente, os “bem informados” sugerem medicações e até mesmo criticam a conduta do médico.
 “É assustador e bastante preocupante. Os pacientes estão letrados. Alguns sugerem medicações que até eu mesmo desconheço. O mais incrível é que a maioria se automedica, seguindo os passos de outras pessoas que postam informações na web”, afirma o neurologista Antônio Tourinho. 
 Uma pesquisa encomendada pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação indicou que, no Brasil, 35% dos internautas procuram sites dedicados a assuntos de saúde. Outro estudo publicado pelo Instituto Ipsos, em parceria com a London School of Economics, revelou uma demanda ainda mais forte: 86% dos internautas brasileiros disseram buscar assuntos de saúde.
 Apenas um quarto desses internautas, no entanto, certifica-se de que a fonte é confiável. “O problema é que essa multidão anônima pode começar a sentir os efeitos de uma ansiedade que nós, médicos, já diagnosticamos com a expressão cybercondria, a mais nova versão da hipocondria, a mania de doença, que inclui riscos de automedicação e o autodiagnóstico”, explica Tourinho.
 A cybercondria acontece, por exemplo, quando uma simples googlada (ou seja, uma simples pesquisa pelo Google) sobre um sintoma faz a pessoa acreditar que sofre de uma doença grave. O cardiologista Manoel Navarro, por exemplo, recebeu em seu consultório uma paciente que achava ter um tumor na cabeça. 
 Isso porque, depois de abrir um exame e tentar entender o que os termos técnicos significavam, ela se equivocou e digitou no buscador uma palavra errada. Foi o suficiente para acreditar que estava com câncer quando, na verdade, estava perfeitamente saudável.
 O Conselho Federal de Medicina (CFM) alerta que a ansiedade causada por dados descontextualizados pode traumatizar. “Não é incomum psiquiatras receberem pacientes com distúrbios de comportamento agravados por desinformações originadas na web”, diz Gerson Zafalon, membro do CFM.
 Ele aconselha que as buscas sejam feitas após o diagnóstico, e direcionadas para informações sobre tratamentos e experiências. “Diversificar fontes, debater dúvidas com os médicos e buscar sites de instituições como governos e universidades ajudam”, sugere.
 Normalmente, a cybercondria ocorre com quem já sofre de hipocondria. A web não amplia o número de hipocondríacos, mas facilita o acesso a quem tem esse distúrbio”, crê a pesquisadora Elis Magnavita, da Universidade Federal da Bahia. Por outro lado, ela acredita que as pesquisas na internet estimulam o conhecimento e a autonomia dos usuários. “A chave da questão é encontrar o equilíbrio”.Rodrigo Vilas Boas. Tribuna.

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