PÁGINAS

sábado, 18 de outubro de 2014

Sucateado, circo Picolino lança vaquinha virtual para manter história de 30 anos


As marcas do tempo podem ser vistas nas estruturas corroídas pela maresia. São percebidas na lona improvisada, que substitui aquela rasgada com os ventos fortes do início do mês. Quem passa pela orla de Pituaçu vê um Circo Picolino apagado, um esqueleto sucateado que não faz jus à sua produção viva. Única escola de circo de Salvador, por onde passaram nomes como João Miguel, Pitty e Jailton Carneiro – que ganhou destaque no Cirque du Soleil – o Picolino está pedindo ajuda. Seu patrimônio de quase 30 anos precisa ganhar fôlego para continuar reintegrando jovens em situação de risco através da arte circense, vindos do Projeto Axé e do Conexão Vida. Sem recurso, mas atenta às novas formas de comercialização da arte, a trupe do Picolino criou a campanha de financiamento coletivo #SomosTodosGuerreiros. A “vaquinha virtual” tem lançamento amanhã, com show de Margareth Menezes e mais de 40 artistas Apesar dos boatos, o Picolino não vai acabar. Quem garante é Anselmo Serrat, seu diretor-fundador. Mas a estrutura precária está comprometendo seriamente as ações que desenvolve sem apoio do poder público e privado

Antes mesmo de poder explicar a ideia que busca arrecadar fundos para reformar toda a estrutura do circo, Anselmo, 66 anos, é interrompido por uma ligação. “As pessoas são sem noção...”, dispara, ao desligar. “Você acredita que me ligaram para pedir convite para um evento que é solidário?”, diz, estarrecido.

Chamado

Mais do que o desafio de arrecadar R$ 138 mil em 60 dias, a campanha é um “chamado”, explica Anselmo. “A sociedade precisa se apropriar disso. A Picolino não é um bem individual. É, antes de mais nada, o símbolo da resistência da arte e da cultura em Salvador. O desafio maior agora é coletivizar. O resultado da campanha é entregar o Picolino à sociedade para que ele passe, realmente, a pertencer a ela”, defende.

Apesar do lançamento oficial ser amanhã, a campanha já começou no sitewww.kickante.com.br e ganhou repercussão nas redes sociais. A cantora Pitty, 37, por exemplo, postou em seu Twitter: “Fiz aula neste circo, cantei em espetáculo e conheço a luta deles p/ manter o Circo vivo. mto triste a situação, AJUDEM #SomosTodosGuerreiros”.

Outros artistas se sensibilizaram, como João Miguel, 44, que se apresentou no circo durante dois anos com seu palhaço Magal. “O Picolino é muito importante, porque me deu força pra entrar no trabalho autoral, em um momento de transição na minha carreia. Muita gratidão e amadurecimento que levo até hoje”, elogia, por telefone. João acumula trabalhos premiados na tevê e no cinema como O Canto da Sereia (2013), Estômago (2007) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005).

Além deles, merece destaque uma trupe menos conhecida, mas igualmente importante para o circo. É o caso do ex-vendedor ambulante Marcos dos Santos, 35, hoje instrutor do Picolino e um dos fundadores da ONG Arte Consciente que, desde 2003, atua no bairro de Saramandaia com aulas de dança, música, capoeira e circo.

“Nossa história foi toda na rua. Via colegas roubarem porque não tinham oportunidade. Muitos foram presos e mortos”, lembra Marcos, que entrou no Picolino pelo Projeto Axé. “A importância do circo é passar um pouquinho de alegria, segurança e autoestima. É ver o mundo de outra forma”, diz.

Luta

Criado há 29 anos por Anselmo Serrat e Verônica Tamaoki, o Picolino tem uma história de resistência. Basta lembrar que ele surgiu dentro de outro circo, o extinto Troca de Segredos, e seguiu para um depósito na Biblioteca Central. Depois passou por um Bar Vagão e ocupou por sete anos o espaço onde jaz o Aeroclube.

Após muita luta para manter-se de pé, o Picolino fincou picadeiro em Pituaçu, onde está há 18 anos. Agora, não há perigo de ser despejado, já que ganhou o direto de uso da terra, por usucapião. Atualmente, já existe uma geração de professores formados por ex-alunos do Picolino.

Um dos frutos dessa história é a filha dos dois, Luana Serrat, 32, professora de tecido acrobático. Nome à frente da Cia. Luana Serrat e membro do Fulanas Cia. de Circo, Luana ganhou o Circo do Faustão, em 2008. Este ano, seu trabalho foi reconhecido pelo Prêmio Fundação Bunge, de São Paulo, na categoria juventude.

Poderíamos contar várias outras histórias sobre o Picolino que, em 2007, recebeu da Presidência da República a Ordem do Mérito Cultural em reconhecimento ao conjunto do seu trabalho. Tudo para explicar o que originou a campanha #SomosTodosGuerreiros. Mas o espaço não permite.

Então, paramos por aqui com uma reflexão de Anselmo: “No começo era buscar R$ 140 mil para fazer uma reforma e hoje é muito mais do que isso. Atingir a meta é fundamental para uma transformação, mas o que está em cheque, na verdade, é a discussão sobre a importância do trabalho realizado pela Picolino nos seus quase 30 anos de vida”.

Ex-aluno e professor do Picolino cria escola de circo na Suécia

Nascido e criado na Boca do Rio, “um dos bairros violentos de Salvador”, o acrobata Jailton Carneiro, 38, foi aluno do Circo Picolino durante sete anos e depois virou professor da trupe. O aprendizado o fez chegar ao badalado Cirque du Soleil, com o qual ganhou o mundo e voltou, em 2009, para se apresentar com o espetáculo Quidam.Correo

Nenhum comentário:

Postar um comentário