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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

‘Tem que ter D.R. sobre sexo’, diz especialista sobre problemas entre homens e mulheres

Com uma especialidade de nome particular, a uroginecologista e sexóloga Paula Milena trata mulheres e homens com problemas sexuais. A vocação para a tarefa, segundo ela, foi descoberta aos poucos, como uma preparação que começou na fisioterapia, desvelou na Fisoterapia Uroniginecológica e alcançou o clímax na Sexologia. Em entrevista ao Bahia Notícias, a feirense Paula contou como trata os pacientes no consultório e revelou os principais problemas que levam as pessoas a procurá-la. A dificuldade em se soltar, principalmente em pacientes do sexo feminino, fez a especialista adotar uma espécie de “terapia de choque” que, segundo ela, dá resultados em curto prazo. Na conversa bem-humorada, Paula também descreveu como baianos e baianas costumam se comportar na cama. A especialista também falou da influência que a religiosidade tem no sexo, disse como trata homens com disfunção sexual (só com exercícios) e afirmou que falta discussão sobre sexo nos relacionamentos. ‘Tem que ter D.R. sobre sexo’, declara. Confira a entrevista abaixo:

Bahia Notícias: Para começar, seu público é mais de homens ou mulheres?

Paula Milena: Hoje, está bem misturado. Quando eu comecei só tinha mulher. Depois de muito trabalho e divulgação, os homens têm procurado tanto quanto as mulheres. A fisioterapia uroginecológica lida com disfunção, com músculo. Além da incontinência urinária, de fezes, de flatos, tem a disfunção sexual, que é o carro chefe. Então, dentro da disfunção sexual, o que o fisioterapeuta uroginecológico faz é trabalhar a falta de orgasmo, a anorgasmia, que ocorre bem mais nas mulheres; e disfunções relacionadas a dores, como a dor na penetração. Tem uma doença chamada vaginismo, que impede a mulher de ser penetrada, e a disparania, que ela deixa ser penetrada, mas tem dor. Essas são as questões que mais atendo no consultório. Setenta por cento das mulheres que chegam até meu consultório vem pelo problema do vaginismo.

BN: Como é que as pessoas chegam até você? Primeiro, elas vão ao médico?

PM: Seria o caminho mais fácil, mas muitos médicos não conhecem esse trabalho. Como existem poucos fisioterapeutas uroginecológicas, não dá para eu sair visitando todo mundo. Mas a maioria das pessoas me conhece por causa das minhas palestras. Elas ouvem, identificam o problema e me procuram.

BN: O seu trabalho, por si só, corrige o problema, ou a pessoa precisaria fazer o tratamento associado a outro tratamento?

PM: Resolve. O vaginismo, mesmo, tem um tratamento que só a fisioterapia basta.

BN: Porque imagino que a pessoa tenha algum bloqueio. O seu trabalho engloba um tratamento mais psicológico também?

PM: Aí é que está a divisão de tudo. Quando chegaram muitos casos da falta de orgasmo na mulher, eu trabalhava como se fosse receita de bolo, mas eu percebi que elas tinham bloqueio e muita dificuldade de se soltar. Uma das grandes tarefas do tratamento para a anorgasmia é a masturbação. Quando eu falava sobre isso, sentia que elas tinham muito pudor. E eu não sabia como agir. Então, por conta dessa necessidade, tive que acrescentar a especialidade de sexologia.


BN: Nelson Rodrigues falava que tem coisas que o sujeito não diz nem para o psicanalista (risos). Elas contam tudo para você?

PM: Para mim contam (risos). Porque se não falar não tem como ajudar. E quem me procura está com problema há muito tempo. É a mulher que não sente orgasmo, ou nunca sentiu na vida. É aquela que não está mais conseguindo enganar o marido. Então, o desespero faz com que elas falem.

BN: A que se devem os bloqueios da sexualidade? Cultura, religiosidade...

PM: Nós somos filhos de uma educação muito repressora. Que teve muito influência da igreja. Quando falo de igreja, falo de igrejas no geral, principalmente nos antepassados. Elas fizeram a mulher acreditar que não sentia prazer e que o sexo tinha a função de reproduzir. O que eu mais ouço no consultório é a mulher dizer que tem nojo, que é pecado, que não pode, que ela vai ser punida. Nós vivemos as consequências de uma educação repressora e machista. No caso dos homens é diferente. O que eu mais atendo no caso dos homens é ejaculação precoce e disfunção erétil. Eles demoram em procurar, mas quando procuram é rápido. Vou te dar um exemplo. Eu falo: “Olha o treinamento é a masturbação. Você tem que fazer uma por dia durante sete dias”, um exemplo. É tranquilo. Faz até três por dia. A mulher é até fácil para falar, mas para botar a mão na massa é mais difícil.

BN: Demora quanto tempo para a pessoa entrar de fato no tratamento?

PM: Comigo, isso dura pouco. Eu costumo dizer que comigo é fácil porque eu faço uma terapia de Choque. Normalmente, eu espero que em um mês ela entenda o porquê de o tratamento ser daquela forma. Porque se não for assim, eu encaminho para outra pessoa. A gente faz uma ou duas sessões por semana, e no período de dois a três meses, a pessoa recebe alta. Agora, tem gente que foi abusada sexualmente. Elas costumam ter entojo da relação sexual ou muita dor. Para essas pessoas, por exemplo, a gente tem que dá um tempo maior.


BN: É caro o tratamento?

PM: Eu não acho (risos). Por sessão está em torno de R$ 100.

BN: A Bahia é conhecida por ter um povo mais liberal, mais despachado, menos moralista. A mulher baiana estaria nesse perfil? No consultório, isso é percebido ou é mais uma falsa imagem do que se vê?

PM: Por experiência, eu comparo a mulher baiana com a mulher brasileira. Os gringos acham que as brasileiras são mais quentes, mais fácies de levar para cama. Dentro do Brasil, se diz o mesmo da mulher baiana. Em todos os lugares, você vai encontrar mulheres altamente permissivas e altamente repressivas. De uma forma geral, eu digo que isso é só aparência. Tanto no consultório quando em palestras, o que eu ouço e o que vejo é bem diferente. Vejo mulheres bem preconceituosas em relação a mulheres que admitem que gostam de sexo, que se masturba diariamente, que tem uma vida sexual bem resolvida. A mulher não lida bem com esse tipo. Isso não deveria ter preconceito nenhum. 

BN: E o caso da “piriguete”. Eu ouço também que elas não gozam tanto como anunciam. Seria mais discurso delas? Isso é verdade?

PM: Nem sempre aquela que transa está gostando, está sentindo, gozando mesmo. É verdade. Muitas mulheres acham que eu sou defensora dos homens quando faço minhas palestras. Não é defesa. É justiça. Dá a César o que é de César. Os homens já entram em uma relação com muita pressão. O que o homem pensa quando entra no sexo? Que ele não pode falhar e que ele não pode gozar antes da mulher. A única pressão que não cabe a ele é fazer a mulher gozar. Porque não depende dele. Homem nenhum vai fazer a mulher gozar. Como não há mulher nenhuma que faz o homem gozar. O que faz ele gozar é o conhecimento do corpo dele. E o que impede a mulher gozar é a falta de conhecimento do corpo dela. Elas botam a responsabilidade no parceiro. Mas não adianta botar a culpa no outro. O problema está em você. Você não conhece seus pontos erógenos. Não se dá orgasmo. Não se conhece.


BN: O que muda na vida de uma pessoa quando ela corrige um problema sexual?

PM: Autoconfiança. Autoestima. Melhora profissional. Mulher não sabe separar as coisas. O homem tem espaço na cabeça para separar as coisas. Trabalho, relacionamento. A mulher, por mais que seja uma boa profissional, de vez em quando mistura. Quando ela tem uma vida sexual muito boa, ela acaba levando para o trabalho muito mais dedicação, mais energia.

BN: Agora, é dito também que atualmente, pelo fato de as mulheres terem assumido mais papéis na sociedade, e papéis masculinos, elas têm tido problemas em exercer a sexualidade. Como é que você vê isso?

PM: Olha, está havendo uma inversão de papéis. A gente brinca que a sociedade está tendo mulheres masculinizadas e homens feminilizados. Não que eu seja contra. O que tem ocorrido é que as mulheres estão ganhando autonomia na sociedade, mas não está tendo autonomia sexual. É uma contradição. “Eu sou chefe de uma grande empresa. Eu tomo conta da minha família, mas não gozo”.

BN: E aí? Como resolver?

PM: É o que eu mais recebo no consultório. São as mulheres mais realizadas profissionalmente, bem-sucedidas, aparente bem-casadas, mas que nunca gozaram. Mas o que foi que a mãe e o pai ensinou? Que a princesinha do papai não faz isso. Porque é uma dama. Uma dama não pode fazer isso, não pode se soltar. Mas quando a mulher vai ganhando autonomia, ela vai querer ser feliz e pouco vai importar o que os outros acham. Ela vai se soltar. Agora, muitos homens não acompanham isso.

BN: E sobre os homens. Quais os grandes problemas dos homens?

PM: A grande dificuldade dos homens é a autoconfiança. Eles tendem a achar que são muito bons e não é assim. Então, o problema deles é admitir que não são aquilo tudo e que no sexo é preciso aprender mais.

BN: E o homem baiano tem alguma característica particular sobre sexualidade?

PM: É pior (risos). Não é à toa que os homens baianos ouvidos em uma pesquisa da [psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo] são os que mais traem. Eles se consideram tão bons que acham que uma mulher só não satisfaz. E não é isso. Ser bom é saber satisfazer a sua mulher.

BN: Outro problema enfrentado pelos homens é a disfunção erétil. Muitos recorrem às pílulas para resolver a falta de ereção. Como é feito o tratamento que você oferece?

PM: Aqui em Salvador tem cinco, seis, urologistas que acreditam no tratamento da fisioterapia uroginecológica e recomendam nosso trabalho. Inclusive, homens jovens, que têm disfunção erétil, e com exercícios de fisioterapia, aparelho, tudo certo, eles conseguem melhorar. Qual a diferença do remédio para a fisioterapia? Quando o paciente para de tomar o remédio, o problema volta. Com a fisioterapia é diferente. É como se fosse uma academia. Mas uma academia para o músculo do pênis, ou da vagina.

BN: Pelo que você observa, mulheres e homens dão importância à leitura de assuntos sobre sexualidade?

PM: Você vê muitas mulheres lendo, mas os homens nem tanto. Os homens quando assistem a vídeos pornôs, aqueles vídeos servem apenas para agradar, não ensinam. O que aquele ator está fazendo com a atriz, talvez a mulher não vá se interessar. A mulher precisa de uma preparação. Tem vídeo de um minuto. Mulher não funciona em um minuto. E aí o homem está cansado, estressado, não quer dá esse tempo que a mulher precisa. Por sua vez, a mulher não quer porque sabe que vai resolver o problema dele e não o dela. Então, esse desencontro é o grande problema. Muitos casais estão se acabando por isso. Como eu falo nas palestras, já que se tem D.R. [Discutir a Relação]sobre tudo, tem que ter DR sobre sexo.




BN: E o público homossexual. Você tem algum trabalho direcionado a eles?

PM: Para 2015, eu estou criando palestras para eles. Tem a ver com cuidados com a musculatura do ânus, que é o mesmo músculo da vagina nas mulheres, para ter uma vida sexual melhor. Nesta minha pesquisa, eu acabei conhecendo alguns homossexuais que relatam que ainda sentem muita dor, que já trasam há muito tempo, mas que continuam sentindo dor. No consultório, eu atendo e indico um produto. Muita gente pensa que os produtos para sexo anal vêm com anestésico. A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] não deixa. Mas os farmacêuticos criaram uma composição que é não é lubrificante, que além de tratar, não molha e relaxa. Não deixa aquele negócio chato. E é consistente. Quando eu indico para os meus pacientes, eles dizem: "Meu Deus, era o que faltava na minha vida". Eu acho que está faltando profissionais que olhem para este público, que dê atenção a esse público. São poucos médicos que os recebem abertamente, e eu não conheço sexóloga para este público. 

BN: E a questão do sexo anal nas mulheres. Aquela história, "meu marido gosta, meu namorado gosta, mas eu não sinto prazer". Isso tem mudado?

PM: Hoje, eu acho que a busca da mulher pelo sexo anal já é bem maior. "Minha amiga fez e disse que é muito bom". Aí, bate a curiosidade. Mulher é curiosa por si só. Eu tenho amigos em Feira e Santana, proctologistas, médicos, e eles me disseram: "Paula, está havendo um aumento em sexo anal e elas dizem: "Eu quero fazer sexo anal. Meu marido pede muito. Antes, eu tinha preconceito, mas agora eu quero conhecer esse prazer". A mulher conquistou uma independência e por isso ela quer gozar, ela não quer mais fingir.por Francis Juliano. Bahia Noticias.

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