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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio para percebê-la na plenitude

Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio para percebê-la na plenitude. Mas como? O último bastião do que parecia resguardado no humano – o sono – acaba de ser esquartejado: o livro 7/24 – Capitalismo tardio e o fim do sono, de Jonathan Crary aponta que há uma legião de seres (vivos?) que acordam no meio da noite para checar emails.
Abstrair-se da vida é o que ocorre quando, de verdade, amamos. Parece que deixamos de existir, entramos num vago, num repouso do estar-no-mundo. Parece que criamos, com o outro, uma terceira criatura que, feita de névoa, se desfaz. Se desfaz, mas permanece na memória não em forma do vago ou da névoa, mas como realidade.
Abstrair-se da vida é o que apontou-me um motorista de frete que veio entregar uma encomenda em meu escritório. Um homem sem dotes intelectuais, mas vigorosamente perceptivo. Ao contemplar, nas paredes, colagens em relevo do poeta Ferreira Gullar, bradou: “Que vazio enorme este homem deve ter dentro de si para poder inventar todas estas formas, todas estas cores”.

Abstrair-se da vida é perceber o vazio enorme que deveríamos ter dentro de nós, desde os bancos escolares. Vazio em que o professor passasse a ser um inventor de roteiros, um “possibilitador” de descobertas para que o aluno revelasse potencialidades insuspeitas – tantas vezes esmagadas pelo caráter repressor das circunstâncias que o cercam.

Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio entre o que se vê e o que é visto, como quando visitamos um museu. Cada obra de arte ou objeto exposto nos convida a olhá-lo, a partilhar dele, a se entregar a ele, permitindo que o objeto inanimado ganhe um vislumbre novo, a cada dia, em cada visita. O Grande Pinheiro, tela de Cèzanne no Masp, pode ser vista cem vezes e, a cada vez, será diferente da outra; o quadro, de certa forma, muda, porque muda o mundo e mudamos nós também

Abstrair-se da vida é o que propiciou o inventor teatral Bob Wilson, ao tirar dramaticidade do nada, recentemente na Cidade das Artes, no Rio. Fez uma representação praticamente de silêncios, luzes, pequenos movimentos, esgares, sem classificar as coisas por palavras, por símbolos ou por gestos, num notável universo de formas de se comunicar. A linearidade do texto desapareceu e a luz propiciou com que a repetição das mesmas palavras fosse apresentada em uma, duas, cinco formas distintas. Afinal, a palavra só existe dentro de sua circunstância. Ouvimos ou pronunciamos uma mesma frase tantas vezes na vida e, no entanto, dependendo de quem fala ou de quem ouve, do momento em que a vivemos, a palavra é pronunciada ou compreendida de outra forma.

Abstrair-se é perceber como a música, por mais que seja executada fora, é dentro de nós que ela passa a existir, seja num concerto ou numa matinha. Como o relato que fez o pintor Luiz Zerbini de um passeio com sua filha no livro Amor, Lugar Comum: “Seguimos quietos pelo rio, quase sem remadas. Ouvindo os silenciosos barulhinhos do mato. Interferir o mínimo. Só se necessário.” Faz poucos dias, saí num entrevero com meu vizinho de platéia, no Theatro Municipal do Rio, que durante um raro concerto, insistia em receber e enviar emails. Assistir ao concerto era mais que um sonho, não podia ser interrompido, como a enfermidade denunciada no livro Capitalismo tardio e o fim do sono…

Abstrair-se é criar este vazio para que inúmeras e distintas compreensões para o tato, olfato, visão, audição e não apenas o excesso da visão nos dias atuais predominem. acima do óbvio virtual, tanto na realidade acordada quanto na realidade do sonho. Uma namorada, de quem amava o aroma, dizia-me me que o aroma não estava nela, mas dentro de mim. Ela tinha razão.



P.S. MARINA SILVA

Tive um momento de abstrair-me e escutar. No caso, Marina Silva, durante encontro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Marina lembrou-me o professor Afonso Arinos, na Faculdade de Direito, em 1969. Dizia ele, com acachapante honestidade, que não teria nada a dizer sobre Direito Constitucional, sua matéria, porque, após o AI-5 do ano anterior, Constituição teria virado um periódico e poderia-se receber, todo mês, uma nova em casa. Passou a falar da Corte de Luís XIV. Marina falou sobre a Corte atual no poder, sobre as atrocidades de que vem sendo vítima, mas falou com tal honestidade de tudo, com tal conhecimento de causa sobre o papel do Estado, que saí dali abstraído e vivinho da silva.Veja

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